Esse blog é para todos aqueles que sentem sua responsabilidade na causa do Senhor, para aqueles que honesta e verdadeiramente levam a sério as coisas do nosso Deus. É um apelo a todos que desejam ser cooperadores de Deus, que procuram servir ao Senhor Jesus de acordo com Seus mandamentos e não de acordo com suas preferências.

domingo, 3 de junho de 2007

Visão Panorâmica do Evangelho de João


Visão Panorâmica do Evangelho de João

Cláudio Calovi Pereira

calovi@alum.mit.edu

Julho de 1999

1) PROPÓSITO DO LIVRO:
O autor do evangelho declara seu propósito em Jo 20:30,31:

Na verdade, fez Jesus diante dos discípulos muitos outros sinais que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram registrados para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.

Nesse trecho, nós temos o seguinte:

a) Jesus realizou muitos sinais que não estão registrados no evangelho de João; b) aqueles que João registrou foram por ele selecionados com um propósito definido.

Desse modo, notamos que todo o evangelho possui uma unidade baseada num objeto definido: a pessoa do Senhor. Nele, uma nova revelação é dada ao mundo, e nessa revelação, um novo poder é oferecido a cada ser humano. Sendo colocada no final do livro, a declaração parece sugerir uma leitura de todo o texto primeiro, para que o próprio leitor possa então percebê-la como verdadeira.

Estes, porém, foram registrados para... (aqui temos a finalidade pela qual estes sinais foram selecionados e descritos por João): 1) Conduzir-nos à pessoal no Jesus histórico como “o Cristo” (ou o Messias, para os Judeus) e como o Filho de Deus (para os gentios); 2) através da fé, conduzir-nos a ter vida em seu nome. Eis o objetivo duplo deste evangelho: que resulta em vida.

Vejamos algumas expressões básicas destes versículos-chave do evangelho de João (20:30,31), que caracterizam o livro todo:

A) Sinais: a palavra grega neste caso é “semeion”, traduzida em português como “sinal”. É diferente da palavra “dinamis”, cuja tradução é “milagre”. A palavra “sinal” (semeion) nos fala de um poder ou significado que está por trás de um evento extraordinário, sendo mais importante que ele. Embora “sinal” apareça em outros livros do NT, João usa somente esta palavra (e nunca “milagre”). Desse modo, os milagres em João não são apenas manifestações sobrenaturais de poder, mas a expressão material de verdades espirituais. O milagre descrito é a demonstração do poder apresentado no ensino.

Desse modo, em cada sinal veremos a revelação de um aspecto da pessoa do Senhor. Vejamos os sinais no evangelho de João:

* Jo 2:1-11: água transformada em vinho: Jesus efetua instantaneamente uma transformação que leva meses para se realizar. Ele revela que não está limitado ao curso natural das coisas. Esse sinal nos fala de transformação: nossa vida velha (água insípida, incolor) é transformada ao recebermos a Sua vida (vinho), que é fonte de alegria, assim como inextinguível (as seis talhas de pedra).

* Jo 4:46-54: a cura do filho do oficial do rei: ao curar um menino que estava a 30 km de distância, Jesus revela-se o Senhor sobre o espaço, pois seu poder não conhece limites de distância.

* Jo 5:1-9: a cura do paralítico no tanque de Betesda: quanto mais longa (38 anos) é uma enfermidade, mais difícil é curá-la. Mas Jesus mostra ser Senhor sobre o tempo e todas as suas consequências ao curar este homem. Ainda que muitos anos de trevas nos tenham paralizado completamente, Ele é poderoso para nos restaurar o vigor e a força.

* Jo 6:1-14: os cinco mil alimentados com 5 pães e dois peixes. Aqui o Senhor se revela como o Senhor da quantidade, capaz de suprir tudo o que nos é necessário. Ele é o que veio para dar vida abundante.

* Jo 6:16-21: Jesus anda sobre o mar tempestuoso: O Senhor revela-se como Senhor sobre todas as leis naturais deste mundo.

* Jo 9:1-12: a cura do cego de nascença: Jesus revela-se como o Senhor sobre as desgraças da condição humana. Nós somos cegos de nascença, e no máximo podemos tornar-nos religiosos. Mas Ele vem abrir-nos os olhos para que possamos ve-lo e adorá-lo. Ele é o Senhor que concede visão espiritual.

* Jo 11:1-46: a ressurreição de Lázaro: Jesus revela-se como o Senhor sobre a morte.

B) Crer: Eis outra palavra importante no evangelho de João. Este verbo aparece 98 vezes em João, comparado com 11 vezes em Mateus, 15 vezes em Marcos e 9 vezes em Lucas. A ênfase na fé surge no primeiro capítulo e é encontrada em todas as partes do livro, culminando na lição dada a Tomé (20:29). Não se trata de uma concordância intelectual, ou de acharmos que o argumento do autor é correto, mas de aceitar as implicações da revelação de Jesus Cristo como Filho de Deus, que implica em uma entrega pessoal à Ele, para que se possa experimentar as realidades espirituais nele contidas (“vida”).

C) O Filho de Deus: Eis um dos títulos de Cristo apresentado no capítulo inicial e ilustrado ao longo do livro.

Jo 1:34 - João Batista testifica que Jesus é o Filho de Deus.

Jo 1:49 - Natanael testifica que Jesus é o Filho de Deus.

Jo 3:18 - João testemunha que Jesus é o Filho de Deus.

Jo 5:25 - O Filho dá testemunho de si próprio.

Jo 9:35 - O Filho dá testemunho de si próprio.

Jo 10:36 - O Filho dá testemunho de si próprio.

Jo 11:4 - O Filho dá testemunho de si próprio.

Jo 11:27 - Marta dá testemunho do Filho de Deus.

Jo 19:7 - Os inimigos de Cristo referem-se a Sua reivindicação (...se fez Filho de Deus), ponto central do conflito.

Jo 20:31 - O apóstolo João dá testemunho do Filho de Deus.

A revelação de Cristo como o Filho de Deus é apresentada na pessoa de Jesus de Nazaré. Ele mesmo testifica de si como o Filho de Deus (4 vezes), enquanto outros testificam dele como o Filho de Deus (João 2 vezes, João Batista, Natanael, Marta; sendo que Tomé declara: “Senhor meu e Deus meu”). Os inimigos de Cristo também repetem Sua reivindicação, tomada como motivo para Sua morte na cruz. Esse é um aspecto crucial da revelação do Senhor Jesus: Ele é o Filho de Deus, Ele é a imagem do Deus invisível. Ele é o próprio Deus que veio em carne para remir a humanidade caída. Como esta verdade tem sido atacada! Os homens estão prontos para receber um grande profeta, mestre ou líder, e podem aceitar até mesmo o conceito de um Deus celestial. Contudo, rejeitam o Redentor Divino que veio em carne, o único que pode tirá-los do pecado e dar-lhes vida. Mas o homem Jesus de Nazaré é o Cristo, o Filho de Deus. Ele diz: “Eu e o Pai somos um” (10:30). Antes dele, o conhecimento do Pai estava envolto em sombras e tipos. Mas somente no Senhor Jesus é que podemos ver o Pai e conhecê-lo.

A importância da revelação de Jesus Cristo como o Filho de Deus é enfatizada em João pela constante menção do Pai em sua relação com o Filho. “Pai” aparece 111 vezes em João, contra 43 vezes em Mateus, 5 vezes em Marcos e 18 vezes em Lucas. Jesus é o Cristo, o Filho de Deus (Jo 20:31). Eis o argumento central deste livro: em torno desta verdade nascem as mais belas expressões de devoção à Cristo e também levanta-se a mais violenta oposição a Ele. Aceitar essa verdade significa reconhecer a primazia de Cristo e render-se a Seu amor e graça; negar essa verdade implica rejeitá-lo totalmente e odiá-lo por sua ameaçadora luz que expulsa as trevas e revela o ego e o pecado.

D) Ter (tenhais): Eis outro termo característico de João, cujo significado implica na posse consciente das coisas espirituais, possuindo-as e mantendo-as, obtendo-as e retendo-as.

E) Vida: Trata-se de outra palavra-chave do evangelho de João, onde é encontrada 36 vezes, contra 7 em Mateus, 4 em Marcos e 6 em Lucas. Esta vida é a palavra grega “zoi” ou “zoé”, que se refere a realidade espiritual interior como distinta da expressão externa visível (no grego “biós”). “Vida” é o objetivo deste evangelho, e tudo nele concorre para que contemplando a revelação de Jesus como o Cristo de Deus, pela fé nele tenhamos vida, e vida em abundância (Jo 10:10).

F) Em seu nome: Eis outra expressão muito característica de João, introduzida no início do livro (1:12) e usada muitas vezes entre os capítulos 14 e 17, quando o Senhor dirige-se especificamente aos seus discípulos. Em suas variantes (“em seu nome”, “em meu nome”), esta expressão encontra-se 11 vezes em João, contra 3 vezes em Mateus, 3 vezes em Marcos e 3 vezes em Lucas. O “nome” do Senhor refere-se a seu caráter revelado, e o termo “em seu nome” significa estar “em união”com tudo o que conhecemos dele.

Temos então a organização lógica deste evangelho: Nos sinais (milagres e sua explicação), temos a revelação do Filho de Deus; na fé, temos a resposta que estes sinais devem ocasionar; e na vida, o resultado que a fé produz. A criação da fé pessoal em Cristo é o ponto alto deste livro, mas esta mesma fé tem ainda outro objetivo, que é vida. O evangelho tem por objetivo transformar completamente a vida e o destino de seu leitor. Isso é efetuado quando Deus, encarnado em Cristo, torna-se a nossa vida.

Todo o evangelho de João é construído sobre as verdades contidas nesta declaração (20:30,31), onde encontramos estas idéias básicas: o fato (v. 30), a fé (v. 31) e o fim (v. 31): a revelação de Jesus Cristo, a convicção nele e o recebimento da vida nele. A vida do Senhor Jesus tem a intenção de ser a base e a inspiração de nossa fé. Cada fato nele deve ser um fator, uma força em nós.


2) PLANO DO LIVRO:
O propósito acima referido é construído e alcançado por meio de um plano bem definido. Que plano é este? Trata-se da apresentação de Jesus Cristo naqueles aspectos de sua revelação que suscitem fé nele. João não alcança seu objetivo através de argumentação, ou de filosofia ou mesmo de teologia. Esta apresentação de Jesus Cristo com vistas à fé nos é dada como a manifestação de uma vida. Cristo e os fatos relacionados com a sua manifestação são os materiais históricos empregados para mostrar como Ele revelou-se aos homens e também como Ele foi recebido pelos homens.

Todavia, junto com a manifestação de Cristo para a fé dos homens, surge o triste fato de que nem todos o receberam. Desse modo, o evangelho também revela o crescimento da incredulidade, a qual culmina com a rejeição (18:40, 19:15) e crucificação de Cristo (19:16). Esta incredulidade nasce da pecaminosidade profundamente enraizada do homem e de sua consequente alienação para com Deus (3:19,20). Segundo Westcott, podemos dizer que o objetivo de João é “expressar da forma mais suscinta possível o desenvolvimento paralelo da fé e da incredulidade através da presença histórica de Cristo.”

Assim, três elementos podem ser observados ao longo de todo o evangelho: revelação, recepção e rejeição. Eles encontram-se no prólogo (1:1-18) e são a substância de cada capítulo do início ao fim. Os dois temas da fé e incredulidade são referidos a duas classes de pessoas: a) “os seus” (Jo 1:11), que embora destinados a Ele, não o receberam; b) “os seus” (13:1), que o receberam. Eis duas classes de pessoas definidas pelo evangelho, que também definem suas duas divisões principais: primeiramente, do cap. 1 ao 12, e depois, do cap. 13 ao 21. Então notaremos que o livro pode ser subdividido em sete seções:


Plano do evangelho de João:


1 - Prólogo (1:1-18):

a) Revelação (1:1-4)

b) Rejeição (1:5-11)

c) Recepção (1:12-18)

2 - A revelação pública de Jesus Cristo (1:19-6:71):

a) Os inícios da fé nos discípulos (1:19-2:12): os testemunhos de João Batista, a atitude dos discípulos, o sinal em Caná

b) As primeiras manifestações públicas (2:13-4:54): a purificação do templo, Nicodemos, a mulher samaritana, a cura do filho do oficial do rei.

c) A crise da manifestação pública (5:1-6:71): a cura no tanque de Betesda, os cinco mil alimentados, o Pão da Vida.

3 - O grande conflito (7:1-12:50):

a) A natureza do conflito (7:1-8:59): rios de água viva, a Luz do mundo, as reações do povo, a verdadeira natureza da rejeição, “Eu Sou”.

b) O desenvolvimento do conflito (9:1-10:42): o cego de nascença, o Bom Pastor.

c) O apogeu do conflito (11:1-12:50): a ressurreição de Lázaro, a entrada triunfal em Jerusalém, os gregos, o grão de trigo.

4 - O crescimento da fé (13:1-17:26):

a) A educação da fé (13:1-38): o exemplo da humildade e a importância do amor fraternal uns aos outros.

b) A instrução da fé (14:1-16:33): o ensino privado aos discípulos: a unidade entre o Pai e o Filho, o Consolador, a Videira.

c) O estabelecimento da fé (17:1-26): a oração sacerdotal.

5 - O clímax da incredulidade (18:1-19:42): traição, julgamentos e crucificação.

6 - O clímax da fé (20:1-31): a ressurreição.

7 - Epílogo (21:1-25): últimas palavras aos discípulos, conclusão.

3) UM PANORAMA DO EVANGELHO DE JOÃO:
Vemos que esta revelação ocorre em diferentes estágios, ao longo dos quais notamos seus efeitos em termos de recepção e rejeição. O prólogo nos anuncia o desenvolvimento destes três temas ao longo de todo o livro (revelação, rejeição, recepção). Em seguida, na primeira parte (1 a 12), temos a revelação pública do Senhor Jesus, onde as primeiras manifestações do Filho de Deus são seguidas por um período de grande conflito. Uma sublime característica dessa primeira etapa é verificar as respostas daqueles que contemplam o Filho de Deus, que se expressam nas confissões, as quais são muitas nesse livro. Estas declarações de fé ou de incredulidade dos homens diante do Filho revelado acontecem em todo o livro, sendo a consequência inevitável do evangelho.

Vejamos as confissões no evangelho de João:

A) João Batista expressa sua apreciação de Jesus na revelação que obteve sobre Ele, mesmo antes de Sua manifestação: Cordeiro de Deus (1:29), Filho de Deus (1:34), o Noivo, que tem a noiva (3:29), aquele sobre quem o Espírito permaneceu (1:33). Estas declarações muito influenciaram alguns de seus discípulos, que afinal partiram para seguir o Senhor.

B) Os primeiros discípulos: aqui temos as confissões de André (Achamos o Messias; 1:41), Filipe (Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei e a quem se referiram os profetas: Jesus, o Nazareno, o filho de José; 1:45) e Natanael (Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel; 1:49). Aqui vemos homens que ansiavam pela vinda do Messias, pelo cumprimento das Escrituras e que descarregavam seu fardo espiritual em intercessão.

C) As confissões imperfeitas: como a de Nicodemos (Rabi, sabemos que és mestre vindo da parte de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes se Deus não estiver com Ele; 3:2).

D) A confissão da covardia: como a de Pilatos (Eis que eu vo-lo apresento, para que saibais que eu não acho nele crime algum; 19:4).

E) A confissão da admiração: os guardas (Jamais alguém falou como este homem; 7:46). Não eram apenas os milagres do Senhor que impressionavam o povo, mas também suas palavras.

F) A confissão da fé inicial, ainda com dúvidas mas cheia de expectativa: a mulher samaritana (Vinde comigo e vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito: será esse porventura o Cristo?; 4:29).

G) A confissão da fé crescente (Pedro, após muitos terem abandonado o Senhor pela dureza de seu ensino): Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna; e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus. (6:67-69).

H) A confissão da fé sendo aperfeiçoada (Tomé): Senhor meu e Deus meu; (20:28).

O conflito entre fé e incredulidade acentua-se à partir do cap. 7. No cap. 8, revela-se a verdadeira natureza desse conflito. Não se trata de opiniões, de doutrinas ou visão, mas de filiação espiritual. O Senhor Jesus fala sobre ser seu discípulo, conhecer a verdade e ser por ela libertos. Seus ouvintes se ofendem, pois não julgam necessitar de libertação (a menos que esta seja externa, política, material). Então a revelação do Filho é levada a seu coroamento: por três vezes o Senhor diz: “Eu Sou”, declarando sua união com o Pai e anunciando a cruz. Seus ouvintes o rejeitam e chegam ao ponto de tentar apedrejá-lo. Conforme a explicação do Senhor, a razão dessa rejeição é que eles são do diabo e buscam satisfazer-lhe os desejos mentirosos e assassinos. Sua rejeição do Filho de Deus expõe esta verdade abertamente. E isso se aplica a todo aquele que rejeita o Filho de Deus em todos os tempos.

As implicações pessoais do conflito entre fé e incredulidade, recepção e rejeição aparecem no capítulo 9, quando aquele que fora cego é forçado a testemunhar diante da tradição religiosa. Sua fé genuína tem duas consequências: 1-a expulsão da sinagoga (e sua marginalização religiosa e social) e 2-o encontro com o Senhor que o curara, agora para fé e adoração. Mas o Senhor não abandona aqueles que pagam o preço de vir a Ele: por isso o cap. 10 introduz o tema das ovelhas e do Bom Pastor. Ele introduz suas ovelhas no aprisco, e Ele também as conduz para fora, sob a sua guarda e liderança. João Batista já falara do noivo e de sua noiva, e aqui temos outra vez a antecipação em ilustração da igreja do Senhor.

Finalmente, quando o maior sinal público do Senhor Jesus é realizado (a ressurreição de Lázaro), manifestando a vitória do Filho de Deus sobre a morte, dois atos opostos resultam. O primeiro é um ato de suprema devoção que nem os discípulos foram capazes de compreender: Maria o unge em Betânia, com seu bálsamo de nardo puro que vale 300 denários, cujo perfume enche toda a casa. O outro ato é de supremo desprezo e ódio (a trama dos líderes religiosos em Jerusalém para matar o Senhor).

Deste ponto em diante, finda o ministério público de Jesus e João passa a descrever o ministério privado do Senhor para com seus discípulos. Aqui inicia-se a segunda grande divisão do evangelho de João. Os capítulos 13 a 17 constituem o discurso de partida do Senhor para com seus discípulos, apresentando seus últimos atos e palavras antes de Sua crucificação. No capítulo 13, o Senhor lava os pés de seus discípulos e após o exemplo de Seu serviço humilde, ensina-os sobre o amor que deve haver entre eles. O verdadeiro amor manifestado em serviço humilde é a regra de ouro da vida comum dos discípulos do Senhor. Nos caps. 14 a 16, o Senhor os ensina sobre sua união eterna com o Pai, sua vinda ao mundo e seu retorno para o Pai. Ele também os ensina sobre a vida de união com Cristo, através da ilustração da videira (cap. 15). Essa união apresenta três aspectos: nossa união e comunhão com Cristo, que se manifesta em frutificação e glória para o Pai (1-11); os resultados dessa união com Cristo no amor e serviço aos irmãos (12-17) e as consequências inevitáveis dessa união com Cristo em relação ao mundo, em inimizade e perseguição por causa do testemunho(18-27).

Contudo, a ênfase dos capítulos 14, 15 e 16 é a vinda do Consolador. Os discípulos não serão deixados sós nesse mundo, para que tomem o ensino do Senhor e prossigam como puderem: isto seria absolutamente impossível! Convém que o Senhor vá, para que envie o Consolador. Esse Consolador, o Espírito Santo, fará com que nossa fé no Filho de Deus possa resultar em vida no seu nome! Segundo Jo 7:38, 39, por meio do Espírito, “rios de água viva fluirão do interior daquele que crer”. O Senhor Jesus já havia dito que haveria dentro de nós uma fonte a jorrar para a vida eterna, e jamais teríamos sede de novo (4:14). Estas ilustrações dadas na primeira seção são agora apresentadas em maior detalhe pelo Senhor aos discípulos.

Para os discípulos, o Espírito Santo significa:

A) Outro consolador (14:16), ou seja, tal como o Senhor fora o paráclito, o advogado, aquele que acompanhou os discípulos pessoalmente, lado a lado e os guardou em todo momento, assim é o ministério do Espírito Santo junto a cada um de nós.

B) Estará sempre convosco (14:16): Ele jamais nos deixará sós.

C) Estará em vós (14:17): não apenas “sobre vós”, ocasionalmente, como na antiga aliança, mas agora em vós, habitando no interior daquele que crê no Senhor.

D) Vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito (14:26): O Espírito Santo nos fará entender as palavras do Senhor, lembrando-as a patir de Sua Palavra e aplicando-as no momento certo.

E) Vos guiará a toda verdade ...vos anunciará as cousas que hão de vir (16:13). Acima de qualquer meio humano, Ele próprio nos guiará a toda verdade, assim como nos ensinará acerca das coisas do porvir.

F) Tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei (14:13): porque o Filho vai para junto do Pai, e o Pai enviou-nos o Espírito, podemos interceder e pedir em nome do Senhor.Além disso, com relação ao testemunho de Deus neste mundo, o Espírito Santo:

G) Dará testemunho de mim (14:27,28): através de nós, o Espírito Santo dará testemunho de Cristo ao mundo.

H) Convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo (16:8-11);

I) Glorificará o Filho (16:14).

Nesta seção, o Senhor enfatiza Sua união com o Pai, assim como a união dos discípulos consigo, a ser efetivada pelo Espírito Santo após a partida e glorificação do Senhor Jesus (7:3, 14:17,20; 17:22,23). Essa união resultará em tremendos privilégios: a certeza da morada eterna com Cristo (14:2), fazer obras maiores que as de Jesus (14:12), receber resposta às orações (14:13,14; 15:7,16; 16:23,24), ser amado pelo Pai e pelo Filho e receber Sua manifestação (14:21), ser morada da própria Trindade (14:23), ser guiados e ensinados pelo Espírito Santo (14:26, 16:13), receber a paz e a alegria de Cristo (14:27, 15:11, 16:24) e ter a certeza da frutificação (15:5).

Para que tais privilégios possam tornar-se experiência viva nos discípulos, o Senhor deixa instruções muito precisas: crer no Senhor Jesus e em Sua união com o Pai (14:10-12); pedir em nome do Senhor e segundo a Sua Palavra (14:13,14; 15:7,16; 16:23,24); ter e guardar os mandamentos do Senhor, pois isso revela nosso amor por Ele (14:15,21,24; 15:10); guardar a Palavra do Senhor, pois isso nos mantém em Seu amor e usufruindo de Sua presença em nosso interior (14:23); permanecer no Senhor e no Seu amor, em comunhão com Ele, pois sem Ele nada podemos fazer (15:4,5,9); amar aos irmãos como o Senhor nos amou, ou seja, ao ponto de darmos nossa própria vida (15:12,17); ser amigos do Senhor através da obediência (15:14,15); testemunhar do Senhor na capacitação do Espírito (15:27); ser dócil para com o ensino e liderança do Espírito Santo (14:26; 16:13).

O Senhor encerra esta seção com a oração sacerdotal (cap. 17), na qual roga: a) por Sua glorificação junto ao Pai, tendo em vista que Ele completara a obra que o Pai lhe havia confiado (1-5); b) por Seus discípulos, para que fossem guardados em união consigo e entre si, sendo santificados na verdade; c) pela igreja do Senhor, para que aqueles que cressem no Senhor expressassem a união entre o Pai, o Filho e seus remidos, de forma que o mundo cresse.

Após a oração nós temos a cruz. Nos capítulos 18 e 19, João nos apresenta o clímax da incredulidade, através da narrativa da traição, julgamento e crucificação do Senhor Jesus. Após ter demonstrado a glória de Sua vida sobre a terra, o Senhor demonstra Seu grande amor para conosco, entregando Sua própria vida por nós na cruz do Calvário. Ele não veio apenas para fazer obras e deixar ensinamentos. Ele veio para dar vida! Por causa de Seu grande amor, Ele não retém a Sua vida gloriosa para Si, mas a entrega no Calvário para que nós possamos recebê-la e experimentá-la. Este é o propósito do evangelho. O clímax da fé é alcançado logo a seguir, nos capítulos 20 e 21, quando é narrada a ressurreição do Senhor e suas aparições finais aos discípulos. Suas palavras finais visam fortalecer a fé dos discípulos, assim como confirmar todo o ensino que lhes havia dado anteriormente.

No princípio era o verbo... Ele estava na eternidade e entrou na história, para que nós pudessemos ser erguidos da história para a eternidade. Foi por isso que Jesus Cristo, o Filho de Deus, veio a esse mundo por um pouco. Agora, Ele ressuscitou e está em glória, e ao recebermos Sua vida, viveremos uma vida de ressurreição, de acordo com Sua graça e poder em nós. Este é o propósito de Sua vinda e também deste maravilhoso evangelho escrito por João.

Referências bibliográficas:

Griffith Thomas, W. H. The Apostle John. Outline studies in his life and writings. Grand Rapids, 1946.

Scroggie, W. Graham. A guide to the Gospels. New York, s.d.

Tenney, Merrill C. John. The Gospel of belief. Grand Rapids, 1948.

Westcott, B. F. The Gospel according to St. John. Londres, 1958.